Assim começaria uma bela fábula não fossem nossos personagens pessoas comuns
como a gente gosta de ver.
Mas, na nossa história, baseada em “fatos reais”, podemos afirmar que os
dois encontravam-se, de fato, muito apaixonados. E este estado de puro
embevecimento, que já durava alguns meses, impedia que quaisquer desgosto e
contratempo pudessem alcançá-los naquele maravilhoso espaço que denominavam
como paraíso particular.
E assim passaram-se os meses, repletos de dias ensolarados e de noites
enluaradas, como deveria ser. Cheios de calor, chuva e frio. E eles
permaneceram ali protegidos, naquilo que parecia ser a plena felicidade.
Abraçavam-se e beijavam-se com arroubo e sofreguidão, a cada pequeno
reencontro. Um mínimo descuido e lá estavam eles entrelaçados, fazendo-se
cócegas e rindo sem conseguir parar. Observavam-se como se fosse a primeira vez
– a cada vez que se viam. Existia o entusiasmo e o espanto. Sentiam-se, a cada
dia, mais próximos, felizes e perfeitamente ajustados à poderosa engrenagem da
afeição.
Parecia não haver nenhum problema e nenhuma razão para desassossegos. E
assim sobraram silêncios. Cada vez mais largos e abissais.
Quando faltava uma semana para completar o primeiro ano de união, coroado de
muitos bons momentos vividos com alegria e puro arrebatamento, João – esse era
o nome do homem – chegou em casa mais tarde do que costumava chegar.
Maria – a mulher – estranhou o fato, mas nada indagou. Serviu o jantar mais
silenciosamente do que o costume e sentou-se na frente do companheiro sem
qualquer palavra pronunciar.
O homem, aparentando um certo cansaço, concentrou-se na refeição e,
repassando mentalmente toda a sua agenda do dia seguinte, nada comentou. A
mulher, contrafeita, subiu para o quarto e, rapidamente, vestiu sua camisola
mais desbotada e rota, deitou-se na cama e dormiu.
Deste dia em diante, sem que ninguém buscasse entender o motivo, todas os
contatos entre eles mergulharam no abismo do silêncio fúnebre e, logo depois,
na mais absoluta e indisfarçada apatia.
Maria passou a não se importar mais com os atrasos nem com o constante
mal-humor de João. Este, por sua vez, também não escondia a falta de vontade de
voltar para casa assim como de conversar sobre a vida dos dois. Nunca mais nada
foi igual.
O que acontecera para que esta nova e inquietante condição os envolvesse
agora? O que faltara ou sobrara? Que pedaço do plano dera errado?
“O que não vimos, não escutamos, não entendemos? O que passou na nossa cara
sem que nos déssemos conta do estrago? Quem, afinal, era o culpado?”
No começo tudo era poesia.
Depois veio a agonia.
Ninguém queria tocar na ferida. Aqueles meses de silêncio que se seguiram
criaram um espaço, antes desconhecido, que cada um ocupou como podia.
Depois, começaram a brigar praticamente todos os dias.
Primeiro de maneira morna, quase sutil. Pequenas provocações acompanhadas de
“não foi isso o que eu disse” ou “você entendeu tudo errado” até que todas as
manifestações passaram a ser acompanhadas de muita cólera e, finalmente, de
agressões.
Um foi enxergando no outro o seu próprio avesso e chegou o dia em que
contemplaram-se, assustados, como se aquela fosse o legítimo e inesperado
primeiro encontro.
A estranheza causada por este inédito olhar se misturou, instantaneamente,
ao conteúdo do caldeirão carregado de bem servidas porções de raivas contidas,
rancores ocultos, desconfianças mútuas, sentimentos confusos e
clandestinos que, sorrateiramente, foram povoando seus sentimentos e humores.
Olharam-se como velhos forasteiros advindos de longínquos e inóspitos
lugares. Nada mais tinham para oferecer ao outro. Nenhuma tigela de tolerância,
nenhuma lasca de amizade, nenhuma réstia do mísero, e agora intangível, amor.
E, desta forma, separaram-se sem compreender como haviam chegado naquele
lugar sombrio.
Porque, certamente, nunca consideraram a possibibilidade de refletir sobre
suas diferenças enquanto ainda se amavam.
O casal que não se dispõe a brigar a boa briga, está fadado a
repetir as irrelevantes e tolas discussões cotidianas, que se arrastarão por anos
a fio, sem que produzam nada de bom além de amarguras, ressentimentos e
enfermidades. Ou, o que é pior: se acomodará experimentando vazios e
silêncios em demasia. Neste caso, vale lembrar: quando um não quer os dois,
infelizmente, não brigam.
Brigas desnecessárias, porém dolorosas, costumam ser sustentadas pelo temor
de enxergar o que se esconde por detrás dos conflitos. Mascaram nossos medos e
sobrevivem até o momento em que um (ou ambos) desista de acreditar na
possibilidade de se recriar a convivência e decida aparentar publicamente
aquilo que não sente e não é. Ou, por outro lado, escolha se separar porque não
há mais nada que o prenda de verdade.
Pelo medo de abandonar a ilusão de estabilidade todos saem perdendo a chance
de construir uma relação mais íntegra e verdadeira.
Mas, afinal, pode uma briga de casal se tornar um jeito saudável de
transformar (para melhor) uma relação?
Por ciência própria e não só por ‘ouvir falar’, com
muita convicção, afirmo que sim!
Fonte :http://psicologaheloisalima.com/2013/05/21/a-boa-briga/
Nenhum comentário:
Postar um comentário