...Isso
significa que você aprende a amar - e a sofrer por amor - com a
cultura. "Cada um de nós é tomado por um sentimento de falta, de
desamparo, desde que deixa o útero", diz Regina. Aprendemos a esperar
que o amor romântico supra essa deficiência, proporcionando prazer,
aconchego e segurança. Esse amor não é apenas uma forma de sentimento,
mas um modo de ser, um conjunto de ideias, crenças, expectativas e
atitudes culturalmente aprendidas ao longo da vida.
A
idealização do outro, a expectativa de completude na relação, a opção
pela monogamia, tudo isso seria resultado de um processo histórico, que
teria começado na Europa do século 12, com a lenda do amor trágico entre
o cavaleiro Tristão e a princesa Isolda. Eis a inspiração de
Shakespeare para o clássico Romeu e Julieta. E de tantos outros
escritores, dramaturgos e roteiristas até os dias de hoje.
A biologia explica
No século 19, o filósofo alemão Arthur Schopenhauer enxergava o amor
como uma estratégia da natureza para nos levar a ter uma porção de
filhos. Chamava isso de "impulso de vida". Você pensa que é tomado por
um sentimento elevado, nobre, mas talvez esteja apenas expressando uma
necessidade ancestral de perpetuar a espécie. O que se procura é alguém
com quem se possa ter um filho geneticamente favorecido. E esses
impulsos permaneceriam em toda a espécie, mesmo que você seja gay ou
estéril.
Da geração anterior à do evolucionista Charles Darwin
e cerca de 60 anos antes da psicanálise de Sigmund Freud, Schopenhauer
foi o primeiro a apontar motivações biológicas e inconscientes para o
que chamamos de amor. "São explicações talvez não muito agradáveis sobre
os motivos que nos levam a nos apaixonar, mas pode haver um consolo
para a rejeição: saber que nosso sofrimento é normal", afirma o filósofo
suíço Alain de Botton em As Consolações da Filosofia" (Editora Rocco).
"O amor não poderia nos induzir a carregar o fardo da multiplicação da
espécie sem nos prometer toda a felicidade que pudéssemos imaginar",
prossegue. Para Botton, devemos respeitar essa lei da natureza que
ocasionalmente nos leva à rejeição, da mesma forma que respeitamos um
relâmpago ou a erupção de um vulcão. São eventos mais fortes que nós.
Nas palavras do filósofo Schopenhauer, "o que nos perturba e provoca
sofrimento nos anos de juventude é a busca obsessiva da felicidade com a
firme suposição de que ela deve ser encontrada na vida". A partir dessa
crença, surge uma esperança que nasce e morre a cada instante. Isso
faz, por exemplo, com que você se sinta derrotado quando um amor não dá
certo. Pode ser de algum modo reconfortante compreender, então, que a
felicidade nunca foi prioridade desta natureza da qual fazemos parte e
que impulsiona o amor.
De todo modo, essa confusão não é
casual. Para Freud, o amor sexual proporciona as mais fortes vivências
de satisfação e, por isso, funciona como um protótipo de toda
felicidade. Depois de experimentar essa sensação uma vez, é natural que
você a persiga sempre. Por isso, o amor ocupa o centro da vida de tanta
gente. "O indivíduo se torna dependente, de maneira preocupante, de uma
parte do mundo exterior", afirma o psicanalista em sua obra O Mal-Estar
na Civilização (Editora Penguin & Companhia das Letras). Essa parte
exterior, exterior a você, é a pessoa amada.
"Nunca estamos
mais desprotegidos ante o sofrimento do que quando amamos, nunca mais
desamparadamente infelizes do que quando perdemos o objeto amado ou seu
amor." Por isso, prossegue o austríaco Sigmund Freud, o criador da
psicanálise, "os sábios de todas as épocas desaconselham enfaticamente
esse caminho (o do amor romântico) - não obstante, ele jamais deixou de
atrair um grande número de seres humanos".
Esteja ciente
Se vamos seguir o caminho desaconselhado, ao menos que o façamos de
sobreaviso. Quando o amor não é correspondido ou mesmo quando acaba, o
melhor caminho é desconstruir a idealização do outro e da relação,
conforme recomenda Ailton Amélio, professor do Instituto de Psicologia
da Universidade de São Paulo (USP) e autor do livro Relacionamento
Amoroso (Publifolha). "Uma pessoa apaixonada tende a exagerar - um jeito
simples de perceber isso é submeter a pessoa amada à avaliação dos seus
amigos", afirma. Eles saberão enxergar melhor defeitinhos - ou
defeitões - que você talvez não veja.
O senso comum nos
recomendaria também um período de afastamento. Para a psicoterapeuta
paulista Miriam Barros, isso faz sentido realmente, mas algumas pessoas
podem precisar de novos encontros e conversas para digerir o término. "É
preciso desabafar, chorar, esvaziar o sentimento", diz ela. Depois
disso, sim: um retiro pode ser oportuno. "Acompanhar a vida do outro por
meio de amigos em comum ou mesmo pelas redes sociais é uma forma de se
retraumatizar", adverte Miriam Barros.
Mas por que tanta gente
faz isso? Por que tantas músicas e filmes de amor nos estimulam a
curtir a fossa? Na opinião da psicóloga e psicodramatista Cecília
Zylberstajn, esse apego ao sofrimento amoroso é uma forma de se manter
ligado ao outro, ainda que unilateralmente. "Assim, você se torna uma
eterna viúva, usando preto para sempre", acredita Cecília.
Para ela, o fundamental nessa etapa é viver a realidade. "Muita gente se
surpreende com os japoneses, pela velocidade com que reconstruíram as
áreas devastadas pelo tsunami", diz. A verdade é que eles não perderam
muito tempo remoendo o passado, saudosistas. "Com o amor é a mesma
coisa: é preciso aceitar a realidade dos acontecimentos para lidar com
eles."
Você não usará preto para sempre, mas o luto é mesmo
necessário. Respeite suas necessidades, portanto. Alguns dias serão
melhores que outros. "Conhece a expressão bad hair day?", provoca
Cecília, referindo-se àqueles dias em que os cabelos "acordam"
completamente indomáveis. "O mesmo vale para as emoções." Haverá dias em
que será mais difícil "pentear" sua frustração. Aceitar isso ajuda a
chegar ao próximo.
Outra medida é de ordem prática, como
explica a psicoterapeuta Miriam Barros. O vazio deixado pelo ex no
espaço da cama tem um cor:respondente no espaço de tempo do fim de
semana. "Você precisa se programar para ocupar o tempo livre e preencher
a agenda com atividades e companhias estimulantes", aconselha.
Também ajuda regular sua perspectiva. Uma relação amorosa bem-sucedida
traz consigo as vantagens da companhia e do sexo. Por outro lado, uma
relação problemática pode potencializar suas neuroses. Por vezes, casais
se mantêm juntos não exatamente pelos benefícios citados algumas linhas
acima, mas porque seus defeitos são complementares. É o que se chama de
codependência. O fim desse tipo de relação é, portanto, uma
oportunidade de libertação e crescimento pessoal.
Como se vê,
recuperar-se de uma rejeição amorosa requer mudanças comportamentais e
psicológicas. E faz parte desse processo compreender os mecanismos
biológicos e culturais que levaram você até essa decepção. É a vida, não
é pessoal.
fonte:http://vidasimples.abril.com.br/temas/como-se-desapaixonar-738295.shtml?utm_source=redesabril_vidasimples&utm_medium=facebook&utm_campaign=redesabril_vidasimples_site

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